Opressores e Oprimidos

Após gravar o episódio 9, onde discutimos a violência no Paraná, fiquei com aquele sentimento de que a conversa tinha ficado pela metade e não sabia o porquê. Dois dias depois, já sei: o problema é a narrativa de opressores e oprimidos, ou de agressores e agredidos, quase sempre insuficiente como caminho para entender os fenômenos sociais. Antes de eu chegar no Paraná em si, dou uma passada pelos Estados Unidos, pois o paralelo com a violência policial contra negros por lá tem sido usado recorrentemente quando tratamos deste assunto.

Neste artigo, Radley Balko argumenta que que acabamos por reduzir questões reais de violência e opressão quando tratamos politicamente esse tipo de caso, que é exatamente o que eu faço quando digo que os sindicatos também estavam errados, que estavam jogando pedras, revistando carros e tentando resolver o assunto por meio da força. Do ponto de vista de quem tomou bala de borracha por aqui ou foi preso injustamente por lá, nada mais certo. Entretanto, sem discutir as causas do assunto de forma mais distante, não se chega a uma solução. Escolher o ponto de vista do agredido ou oprimido, é o mesmo tipo de erro, é falhar em tomar o necessário afastamento do problema.

Argumenta-se que o problema policial americano seria a discriminação racial por parte dos policiais ou mesmo a forma como as cidades e bairros pobres foram constituídas por lá. A meu ver, continua-se a mirar as causas erradas. A sociedade americana experimentou uma enorme queda nos índices de criminalidade nas últimas décadas justamente por conta de uma política de tolerância zero, que incluiu o aumento do contingente de policiais que passaram a se portar de forma hipersensível e aumentaram como nunca o contingente de presos. Quem está na margem (no sentido econômico do termo) do problema, justamente os pobres e negros, serão mais afetados por esse tipo de política, mas não por ser a polícia racista ou por haver uma conspiração de empreiteiros e ricos a expulsá-los para cidades pobres, mas sim porque a essa política cria uma forma de estado policial. Os americanos podem ainda não ter se dado conta, mas vão precisar realizar um debate maduro para decidir até onde os ganhos de segurança pública compensam um estado hiperativo na prevenção do crime. Espero que um povo que tem a liberdade como valor identitário saiba fazer essa discussão e dar alguns passos atrás, mesmo que ao custo de um recrudescimento da violência.

De volta ao Paraná, a questão de verdade não é o comportamento dos sindicatos ou das polícias durante o incidente da semana passada, mas sim as questões políticas subjacentes. Os mesmos sindicatos que bradam que a lei da terceirização conteria em si uma diminuição de direitos trabalhistas (o que faria dela uma boa lei, mas essa é outra discussão), reclamam que a transferência dos professores aposentados de um fundo para outro ameaçaria suas aposentadorias. O trouxa do Beto Richa, como bom peessedebista, não foi capaz de ver a arapuca: um discurso falso mas poderoso para inflamar os ânimos, uma comissão de frente de vândalos, a massa de idiotas úteis para garantir vários mártires logo atrás e, seguros em cima do carro de som a inflamar a multidão, os petistas do sindicato. Em vez de tratar da questão politicamente antes de o palco da tragédia se montar, tentou discutir em termos técnicos contra adversários com um discurso emocional e não tratou de preparar sua polícia para reagir às provocações. Feliz em ver seus adversários debaixo do porrete, não entendeu como tinha sido vítima de um golpe manjado de um sindicato que é que um braço do PT, o partido político adversário. Quando se deu conta do ocorrido, era tarde: em vez de predador, virou jantar.

Sim, do mesmo modo que não se pode aceitar que a polícia de lá discrimine as pessoas pela sua cor de pele, é claro que não se pode aceitar que os soldados daqui ataquem indiscriminadamente o povo na praça. Resolver essas questões é importante, mas é forçoso entender que ambas são apenas fatores nos episódios discutidos, não sua causa.