O ataque de Haddad à marginália de São Paulo

E mais uma vez, as políticas de trânsito da Prefeitura de São Paulo viraram assunto para discussões acaloradas em redes sociais. Como já tratamos das partes que me pareciam mais dignas do podcast em nosso episódio 16, mas ainda assim queria fazer alguns comentários mais elaborados sobre o tópico, resolvi apelar para o blog. 

Primeiro, o fato: desde a última segunda-feira, a velocidade em vias expressas da cidade foi diminuída, com a maior mudança acontecendo nas marginais Tietê e Pinheiros. O resultado mais imediato da mudança, e o que mais me interessa, foi seu aparentemente inevitável uso para uma nova rodada de acusações de "coxinhas" vs. "petralhas" em redes sociais e rodas de boteco. E me interessa porque parece uma grande oportunidade para se desenvolver o saudável costume de discutir algo como adulto.

Por exemplo, uma das notícias que tenho visto serem compartilhadas diz que as marginais tiveram engarrafamentos abaixo da média no primeiro dia do novo limite. Razão, para alguns, de manifestações no nível "chora reacinhas". De imediato, porém, não deve parecer nenhum exagero lembrar que um dia (uma manhã, mais especificamente) parece uma amostra pra lá de não suficiente para se poder avaliar o resultado de qualquer mudança numa lei. Basta pensar na mudança das regras de qualquer esporte, e como demora algum tempo para que os jogadores e times possam evoluir suas estratégias para se adequar à novidade.

Mais que isso, trânsito e transportes são um assunto estudado no mundo inteiro, então temos a vantagem de que pessoas muito mais iluminadas do que eu ou o comentarista supracitado já se debruçaram sobre situações semelhantes e nos presentearam com alguns conceitos interessantes e importantes ao assunto em pauta, como demanda induzida, efeito rebote e Paradoxo de Downs-Thomson.

Em resumo, temos todas as razões do mundo pra acreditar que mesmo que haja uma real diminuição no nível de engarrafamento das marginais devido à mudança - porque, digamos, muitos motoristas resolveram utilizar rotas alternativas e fugir da via, prevendo que iriam demorar mais -, a tendência é de que, em muito pouco tempo, motoristas se sintam incentivados a se aproveitar dessa diminuição e voltem a lotar as marginais.

Alguém, porém, poderá lembrar que o objetivo da mudança nas velocidades não era o de diminuir engarrafamentos ou volume de carros, mas sim de atacar algo potencialmente mais grave: os acidentes, muitas vezes fatais. Afinal de contas, parece mais do que razoável forçar as pessoas a dirigirem mais devagar e perder uns minutos a mais no trânsito, em nome de diminuir os custos materiais e humanos das batidas, certo? Ou talvez mesmo esse ponto seja mais complicado

(...)Com base nos mesmos dados, a Folha de S. Paulo informa que o número de atropelamentos causados por ônibus aumentou 31%. Metade dos atropelamentos fatais causados por ônibus, ainda de acordo com o jornal, ocorreram nas faixas exclusivas. O motivo seria o aumento de velocidade que as faixas de ônibus permitiram - o aumento que o secretário de transportes, Jilmar Tatto, e o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, destacaram em entrevistas logo após a implementação.

Primeiro, como o mesmo texto nota, o número de acidentes fatais nas marginais sequer era alto para começo de conversa (está abaixo da média de países muito mais desenvolvidos e de motoristas muito mais educados do que o Brasil). Além disso, por mais trágicas que sejam as fatalidades, eu garanto que ninguém - especialmente não o amigo daquele comentário do Facebook - acha que a maneira de lidar com o aumento de acidentes envolvendo ônibus seja o de voltar à situação anterior, em vez de buscar educar motoristas, criar sinalizações melhores e áreas de proteção para pedestres em regiões de maior risco. 

Mas afora a inconveniência para os motoristas, qual o problema de eles terem que andar mais devagar, afinal de contas? No caso específico de São Paulo, foram 69.4 bilhões de problemas no ano passado. 

Ou seja, isso tudo quer dizer que eu sou contra a diminuição na velocidade das marginais? Não. Isso tudo quer dizer que eu acho que, como tantos outros, o assunto é bem mais profundo do que a discussão média que acontece nas redes sociais e que todos poderíamos nos beneficiar de discuti-lo nesses termos, em vez de apelar ao falso dilema e ao viés de confirmação.

E para que não pareça que eu estou fugindo de dar uma opinião pessoal, digo que:

  1. Acho que é o tipo de coisa que, como a ideia de fechar a Av. Paulista aos domingos, deveria ser implementada em forma de teste para avaliar os resultados antes de virar lei. Por isso, fico feliz que o prefeito já tenha dito que a mudança pode ser revogada ou alterada, conforme seus resultados e recepção pela sociedade;
  2. Não tenho nada contra, a priori, diminuir as velocidades nas marginais. Até porque, do alto da minha proverbial ignorância, entendo que o modelo de vias expressas como as marginais é extremamente ultrapassado e ruim para a evolução da cidade.
  3. Porém, assim como sou plenamente favorável ao fim do Minhocão pelas mesmas razões, também entendo que a cidade hoje se desenvolveu para depender dessas obras horrorosas e seria importante estudar o impacto dessas mudanças bem como oferecer alternativas concretas a elas (melhorias na malha de transporte público, incentivo a serviços como o Uber, pedágio urbano, entre outras). 

(Foto do thumbnail by Marcos Leal, publicada por licença CC BY 2.0)

Opressores e Oprimidos

Após gravar o episódio 9, onde discutimos a violência no Paraná, fiquei com aquele sentimento de que a conversa tinha ficado pela metade e não sabia o porquê. Dois dias depois, já sei: o problema é a narrativa de opressores e oprimidos, ou de agressores e agredidos, quase sempre insuficiente como caminho para entender os fenômenos sociais. Antes de eu chegar no Paraná em si, dou uma passada pelos Estados Unidos, pois o paralelo com a violência policial contra negros por lá tem sido usado recorrentemente quando tratamos deste assunto.

Neste artigo, Radley Balko argumenta que que acabamos por reduzir questões reais de violência e opressão quando tratamos politicamente esse tipo de caso, que é exatamente o que eu faço quando digo que os sindicatos também estavam errados, que estavam jogando pedras, revistando carros e tentando resolver o assunto por meio da força. Do ponto de vista de quem tomou bala de borracha por aqui ou foi preso injustamente por lá, nada mais certo. Entretanto, sem discutir as causas do assunto de forma mais distante, não se chega a uma solução. Escolher o ponto de vista do agredido ou oprimido, é o mesmo tipo de erro, é falhar em tomar o necessário afastamento do problema.

Argumenta-se que o problema policial americano seria a discriminação racial por parte dos policiais ou mesmo a forma como as cidades e bairros pobres foram constituídas por lá. A meu ver, continua-se a mirar as causas erradas. A sociedade americana experimentou uma enorme queda nos índices de criminalidade nas últimas décadas justamente por conta de uma política de tolerância zero, que incluiu o aumento do contingente de policiais que passaram a se portar de forma hipersensível e aumentaram como nunca o contingente de presos. Quem está na margem (no sentido econômico do termo) do problema, justamente os pobres e negros, serão mais afetados por esse tipo de política, mas não por ser a polícia racista ou por haver uma conspiração de empreiteiros e ricos a expulsá-los para cidades pobres, mas sim porque a essa política cria uma forma de estado policial. Os americanos podem ainda não ter se dado conta, mas vão precisar realizar um debate maduro para decidir até onde os ganhos de segurança pública compensam um estado hiperativo na prevenção do crime. Espero que um povo que tem a liberdade como valor identitário saiba fazer essa discussão e dar alguns passos atrás, mesmo que ao custo de um recrudescimento da violência.

De volta ao Paraná, a questão de verdade não é o comportamento dos sindicatos ou das polícias durante o incidente da semana passada, mas sim as questões políticas subjacentes. Os mesmos sindicatos que bradam que a lei da terceirização conteria em si uma diminuição de direitos trabalhistas (o que faria dela uma boa lei, mas essa é outra discussão), reclamam que a transferência dos professores aposentados de um fundo para outro ameaçaria suas aposentadorias. O trouxa do Beto Richa, como bom peessedebista, não foi capaz de ver a arapuca: um discurso falso mas poderoso para inflamar os ânimos, uma comissão de frente de vândalos, a massa de idiotas úteis para garantir vários mártires logo atrás e, seguros em cima do carro de som a inflamar a multidão, os petistas do sindicato. Em vez de tratar da questão politicamente antes de o palco da tragédia se montar, tentou discutir em termos técnicos contra adversários com um discurso emocional e não tratou de preparar sua polícia para reagir às provocações. Feliz em ver seus adversários debaixo do porrete, não entendeu como tinha sido vítima de um golpe manjado de um sindicato que é que um braço do PT, o partido político adversário. Quando se deu conta do ocorrido, era tarde: em vez de predador, virou jantar.

Sim, do mesmo modo que não se pode aceitar que a polícia de lá discrimine as pessoas pela sua cor de pele, é claro que não se pode aceitar que os soldados daqui ataquem indiscriminadamente o povo na praça. Resolver essas questões é importante, mas é forçoso entender que ambas são apenas fatores nos episódios discutidos, não sua causa.